Por Carolina de Castro Nyerges
Gerente de conteúdo pedagógico Ways
Em uma rotina atravessada por telas, compromissos e tantas informações, abrir um livro com uma criança é um gesto potente de presença, escuta, imaginação e construção de linguagem.
“As crianças se tornam leitoras no colo de seus pais”. A frase da professora, poeta e premiada autora de livros infantis Emilie Buchwald traduz a essência da literacia familiar, um conceito que, segundo o Guia de literacia familiar publicado pelo Ministério da Educação (2019), abrange o conjunto de práticas e experiências relacionadas à linguagem, à leitura e à escrita que a criança vivencia com seus pais ou cuidadores. Isso inclui conversar, narrar histórias, manter contato com textos escritos e ler em voz alta.
O documento reforça uma ideia essencial: mães, pais e cuidadores são os primeiros professores da criança, não porque devam reproduzir a escola em casa, mas porque suas interações cotidianas têm um papel decisivo na relação que ela estabelece com a linguagem.
Quando um adulto lê para uma criança, narrando a história, mostrando as ilustrações, explorando sons e expressões, oferece muito mais do que palavras. E, quando lê com ela, convidando-a a comentar, perguntar, antecipar acontecimentos ou recontar uma cena, transforma o livro em conversa. As duas experiências são valiosas e podem acontecer no mesmo momento.
Dados da pesquisa conduzida pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (2026) revelaram que 53% das famílias brasileiras residentes nos estados do Ceará, Pará e São Paulo nunca ou raramente leem livros para as crianças. Em contrapartida, a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (Instituto Pró-Livro, 2024) traz um dado que soa como um chamado: 55% das crianças entre 5 e 13 anos gostariam que um adulto lesse mais para elas.
A pesquisa também mostra que o hábito de leitura precisa ser cultivado continuamente. Embora crianças de 5 a 10 anos leiam, em média, 7,27 livros por ano, o número de leitores diários entre estudantes é baixo: 6% nos anos iniciais do ensino fundamental e 7% nos anos finais e no ensino médio. Além disso, a leitura por prazer ainda ocupa pouco espaço entre os motivos declarados pelos brasileiros para ler: apenas 24% dos entrevistados leem por gosto (Instituto Pró-Livro, 2024).
A jornada literária e bilíngue na Ways
Livros literários de qualidade apresentam personagens complexos, experiências humanas genuínas, diferentes culturas e múltiplas formas de viver no mundo. Eles podem funcionar como espelhos, quando a criança se reconhece em uma história, e como janelas, quando ela encontra realidades diferentes da sua.
O contato com livros literários em inglês é especialmente relevante em uma educação bilíngue. Ler em outra língua não é apenas aprender novas palavras: é entrar em contato com outros ritmos, sonoridades, referências culturais e formas de narrar.
Por isso, a Ways Bilingual School leva a formação leitora muito a sério. A cada ano, os estudantes recebem 8 livros literários em seu kit de material, sendo 4 deles em língua portuguesa e 4 em língua inglesa.
Esses títulos são explorados em sala de aula com a mediação dos professores e o trabalho com os livros é potencializado quando eles são levados para casa e as famílias podem realizar leituras dialogadas com as crianças, conversando antes, durante e depois da leitura, mudando o tom de voz de acordo com os personagens e as diferentes emoções, e fazendo perguntas curiosas sobre a história para a criança responder.
Dez minutos dessa prática diária podem ser um excelente começo e uma grande contribuição para o processo de alfabetização e de incentivo à leitura por prazer.
Como apoiar a leitura em inglês em casa
Muitas famílias têm dúvidas sobre como mediar a leitura dos livros em inglês, especialmente quando não dominam o idioma ou quando a criança ainda é pequena ou não tem muita familiaridade com a nova língua. Por esse motivo, reunimos algumas dicas que podem facilitar esse momento de leitura em família.
- Não é preciso traduzir. A criança não precisa entender todas as palavras para se beneficiar da história. O contexto, o tom de voz e as ilustrações constroem o significado.
- Respeite o tempo da criança. Durante o aprendizado de uma nova língua, é comum que a criança passe por um período em que escuta, observa e compreende mais do que consegue expressar verbalmente. Esse período pode durar semanas ou até meses. A criança talvez responda com gestos, olhares, apontamentos, palavras isoladas ou até mesmo em português. Isso não significa que ela não esteja aprendendo. Ao contrário, ela está reunindo repertório, percebendo sons, identificando padrões e construindo segurança para se comunicar quando se sentir pronta. O mais produtivo é oferecer exposição consistente e significativa à língua, sem pressionar por respostas imediatas.
- Se você não fala inglês, seja um explorador visual. Mostre a capa, o título e antecipe o enredo da história. Deixe a criança explorar as ilustrações e faça perguntas em português: “O que você acha que ele está sentindo?” ou “O que vai acontecer agora?”.
- Ouça o audiolivro. Procure o audiolivro da história na internet e acompanhe-o junto com a criança, virando as páginas.
- Peça que a criança seja a narradora. Ela pode contar, em português, o que lembra da história lida em inglês na escola. Caso já saiba ler, ela pode tentar ler e dizer em português o que entendeu.
- Mantenha a leitura prazerosa. O objetivo não é corrigir pronúncia ou cobrar tradução, mas criar uma relação positiva com o livro e com a nova língua.
- Atenção dividida não é ruim. Nem toda criança acompanha a leitura olhando fixamente para as páginas o tempo inteiro. Algumas escutam enquanto desenham, manipulam um objeto ou se movimentam. Isso não significa, necessariamente, que não estejam envolvidas.
- Incentive também os adolescentes. A mediação nem sempre precisa ocorrer pela leitura em voz alta. Ela pode acontecer por meio de uma conversa respeitosa depois da leitura, sem interrogatório ou cobrança. Perguntas como “O que você achou do final?”, “Teve algum personagem que ficou na sua cabeça?” ou “Você indicaria esse livro para alguém?” ajudam a manter o diálogo aberto e a reconhecer o adolescente como leitor autônomo.
Um convite à Bienal do Livro de São Paulo
Uma ótima oportunidade para transformar a escolha de livros em passeio, memória e descoberta é visitar a 28ª edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que acontece na cidade de São Paulo entre os dias 4 e 13 de setembro e reúne leitores, autores, editoras e histórias para todas as idades.
Mais do que sair do evento com sacolas cheias, vale viver a experiência com calma. Visite os espaços infantis e juvenis, participe de conversas e atividades, observe quais capas chamam a atenção das crianças e permita que elas façam escolhas.
Um livro escolhido por interesse próprio tem mais chances de ser lido, relido e lembrado.
A seguir, algumas sugestões de livros em inglês para procurar na Bienal ou em livrarias. As faixas etárias são apenas referências: o melhor livro é, muitas vezes, aquele que desperta uma pergunta, um riso ou o desejo de virar a próxima página.
0 a 3 anos
Nesta fase, livros com repetição, ritmo, imagens expressivas, texturas, abas e narrativas curtas costumam favorecer o envolvimento.
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Brown Bear, Brown Bear, What Do You See?, de Bill Martin Jr. e Eric Carle
Com repetições e ilustrações marcantes, é excelente para brincar com cores e animais. -
That’s Not My…, série de Fiona Watt, ilustrada por Rachel Wells
Série sensorial com texturas e frases simples. Há títulos como That’s Not My Puppy, That’s Not My Dinosaur e That’s Not My Penguin. É uma boa escolha para bebês e crianças pequenas que ainda exploram os livros principalmente pelo corpo e pelos sentidos. -
Goodnight Moon, de Margaret Wise Brown, ilustrado por Clement Hurd
Um clássico da leitura antes de dormir, com linguagem repetitiva e acolhedora. Ótimo para criar rituais e convidar a criança a nomear os objetos presentes nas ilustrações.
3 a 6 anos
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The Gruffalo, de Julia Donaldson, ilustrado por Axel Scheffler
Uma narrativa divertida, cheia de ritmo, repetição e imaginação. -
The Colour Monster, de Anna Llenas
Um livro sensível para conversar sobre emoções e sentimentos. -
Last Stop on Market Street, de Matt de la Peña, ilustrado por Christian Robinson
Uma história delicada sobre comunidade, generosidade e a beleza de observar o cotidiano.
6 a 9 anos
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The Day the Crayons Quit, de Drew Daywalt, ilustrado por Oliver Jeffers
Bem-humorado e inventivo, apresenta diferentes pontos de vista por meio das cartas dos lápis de cor. -
The Proudest Blue, de Ibtihaj Muhammad e S. K. Ali, ilustrado por Hatem Aly
Uma narrativa sobre identidade, pertencimento, coragem e orgulho de ser quem se é. -
The Boy, the Mole, the Fox and the Horse, de Charlie Mackesy
Com texto acessível e ilustrações expressivas, convida a conversas sobre amizade, gentileza e vulnerabilidade.
9 a 12 anos
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Wonder, de R. J. Palacio
Uma história envolvente sobre empatia, convivência e as muitas perspectivas que compõem uma mesma experiência. -
The Wild Robot, de Peter Brown
Mistura aventura, natureza e tecnologia em uma narrativa que costuma conquistar leitores em transição para livros mais longos. -
Front Desk, de Kelly Yang
Aborda amizade, imigração, família e justiça social a partir do olhar de uma menina chinesa-americana.
12 anos ou mais
Para adolescentes, vale oferecer obras que respeitem sua capacidade de refletir sobre questões complexas, sem deixar de lado o prazer de uma narrativa envolvente. A escolha pode partir dos interesses do jovem: fantasia, romance, mistério, questões sociais, ficção científica, esportes ou histórias de amadurecimento.
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The Poet X, de Elizabeth Acevedo
Romance em versos sobre uma adolescente dominicana-americana que encontra na poesia uma maneira de compreender seus sentimentos, sua família e sua própria voz. Uma excelente opção para leitores que gostam de textos intensos e contemporâneos. -
A Good Girl’s Guide to Murder, de Holly Jackson
Para quem gosta de mistério, investigação e narrativas ágeis. -
The Gilded Ones, de Namina Forna
Fantasia protagonizada por uma jovem que descobre possuir habilidades extraordinárias em uma sociedade que tenta controlar e silenciar meninas. Aborda identidade, coragem, amizade e opressão. Indicado para leitores que apreciam mundos fantásticos e protagonistas fortes.
Um livro, uma conversa, um hábito para a vida
Formar leitores não é exigir que crianças e adolescentes leiam mais páginas, mais rápido ou em uma única língua. É ajudá-los a encontrar sentido, prazer e pertencimento nas histórias.
Quando a leitura encontra tempo, vínculo e liberdade, ela deixa de ser apenas uma habilidade escolar. Torna-se uma forma de habitar o mundo.
Referências
- CÂMARA BRASILEIRA DO LIVRO (CBL). Panorama do Consumo de Livros. São Paulo: CBL, 2025.
- INSTITUTO PRÓ-LIVRO. Retratos da Leitura no Brasil: 6ª edição. São Paulo: Instituto Pró-Livro, 2024.
- BRASIL. Ministério da Educação. Conta pra Mim: Guia de Literacia Familiar. Brasília: MEC, 2019. Disponível em: https://alfabetizacao.mec.gov.br/images/pdf/conta-pra-mim-literacia.pdf . Acesso em: 27 ago. 2026.
- FUNDAÇÃO MARIA CECÍLIA SOUTO VIDIGAL. Aprendizagem, bem-estar e desigualdades na primeira infância em 3 estados brasileiros: evidências do International Early Learning and Child Well-Being Study – IELS, 2026. Disponível em: https://fundacaomariacecilia.org.br/biblioteca/iels-resultados-brasil-aprendizagem-bem-estar-e-desigualdades-na-primeira-infancia/ . Acesso em: 27 ago. 2026.